Por que o Brasil não está pronto para educação à distância?

Por Marcio Dornellas

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Recentemente, novas diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE) autorizaram que parte da carga horária do ensino médio possa ser cumprida à distância. Há 20 anos, fui fundador de uma escola com aulas 100% presenciais. Anos depois, fui fundador de uma empresa focada em Educação a Distância (EAD) para preparação para o vestibular. Empresas com conceitos díspares, mas que até hoje são referências em suas áreas de atuação. Após vivenciar os dois lados penso que só existe uma coisa melhor que os cada um dos conceitos: os dois conceitos juntos.

Quando a EAD surgiu, muitos especialistas diziam ser o fim do ensino presencial. Entretanto, o tempo nos mostrou que, na prática, não é assim. Considerando até mesmo países onde é liberado o homeschooling (método de aprendizagem focado em aulas fora da escola) o ensino presencial ainda predomina.

Quando olhamos para fora, mais de 65 países tem a educação domiciliar regulamentada, entre eles Chile, Estados Unidos, Inglaterra, França e até a Finlândia considerada o país com melhor educação no mundo.

Sou a favor da liberação do homeschooling no Brasil, mas hoje, não. A cultura que temos atualmente não condiz com a conduta necessária para garantir a efetividade desta linha de aprendizagem.

Anos atrás notava-se pouca repercussão acerca deste tema. Primeiramente por questões financeiras. Um aprendizado em casa exigia uma contratação de aulas particulares de diversas matérias que tornava o custo muito mais alto que um colégio presencial. Porém, o avanço dos conteúdos online alavancou a proposta, que passou a ser uma realidade acessível para uma parcela muito maior da sociedade, consequentemente, acalorando este debate.

Boa parte da sociedade ainda associa o fato de não comparecer presencialmente à escola com falta de responsabilidade ou comprometimento. Em maior parte dos casos, quando paramos para analisar o perfil dos brasileiros que carregam essa bandeira, encontramos famílias insatisfeitas com o ensino da maioria das escolas ou que tentam se afastar da violência, bullying, drogas ou ainda carregam valores difundidos pela instituição que entram em desalinho com os valores familiares.

Mas então por que o Brasil não está pronto para o homeschooling? Acredito que a sociedade brasileira ainda não está preparada para esse passo. Ainda precisamos entender que estudar em casa não é ficar no videogame. Precisamos formar professores preparados para produzir aulas para EAD. Precisamos resgatar a credibilidade nos órgãos regulamentadores e de fiscalização.

Neste sentido, a decisão do CNE foi, na minha opinião, extremamente acertada. A medida gera a possibilidade de darmos um passo de baixo risco, pois mantém uma boa base presencial, mas ao mesmo tempo, possibilita uma evolução no modelo de educação à distância.

 

Márcio Dornellas, 40 anos, é formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em licenciatura matemática.

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